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HIV: o vírus da discórdia junho 13, 2008

Posted by portaldoestudante in Notícias.
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Os médicos encarregados de combater a Aids no mundo divergem sobre o risco de epidemia entre os heterossexuais. Alguns acham que ele simplesmente não existe. O Brasil está no centro da polêmica
Ivan Martins

 

Elizabeth Pisani: “Estamos investindo errado em prevenção”

Esta semana ocorreu em Nova York uma conferência global sobre Aids patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com uma observadora crítica e bem informada – a epidemiologista americana Elizabeth Pisani (foto) – foram duas as principais conclusões do encontro. A primeira, divulgada por alto-falante, é que os médicos estão tendo enorme sucesso em tratar e manter vivas as pessoas contaminadas. A segunda conclusão, murmurada pelos corredores, é que a prevenção de novas infecções tem sido um fiasco. Logo, raciocina Pisani, há mais gente doente no mundo, vivendo mais, com uma noção decrescente de risco e ajudando a infectar outras pessoas. “A Organização Mundial da Saúde não quer falar sobre isso”, diz ela. “Mas o fato é que as novas infecções estão crescendo entre homens gays porque as pessoas estão jogando fora as camisinhas. Estamos investindo errado em prevenção”.

Pisani, que é também jornalista e escritora, autora de um livro controverso (e não disponível em português) chamado A sabedoria das putas – burocratas, bordéis e o grande negócio da Aids, faz parte de um grupo barulhento de dissidentes que discorda da forma como o establishment global da saúde pública, ligado ao Departamento de Aids da OMS, vem combatendo a epidemia. Ela sustenta, essencialmente, que há duas epidemias de Aids – uma na África Sub-Sahariana e outra no resto do mundo – e que a OMS vem tratando o resto do mundo como se fosse a África, com perda de recursos e maus resultados. Na África Sub-Sahariana, como se sabe, os níveis de infecção são elevados – 5% da população adulta têm HIV, comparado, por exemplo, com 0,5% da população no Brasil – e a doença atinge, indiscriminadamente, homens e mulheres de todos os grupos sociais. No resto do mundo, sustenta Pisani, a epidemia está concentrada em homossexuais masculinos, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo e seus clientes. “É nesses grupos que temos de focar o trabalho de prevenção”, diz ela. “Mas não é isso que a OMS está fazendo.”

Junto com Pisani, na contramão da OMS, está James Chin, um epidemiologista americano de origem chinesa com credenciais impecáveis. Professor de Berkeley, ele acompanha a evolução da Aids desde o seu surgimento nos anos 80 e – assim como Pisani – trabalhou por muitos anos em Genebra, na sede da OMS. É de Chin boa parte da metodologia estatística usada pela organização para avaliação e controle da doença. Pois Chin afirma que a OMS exagera os números e os riscos globais da Aids, acusa a instituição de ter um entendimento “politicamente correto” da doença e (o mais espetacular) sustenta que, fora dos grupos de risco tradicionais – homossexuais masculinos, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo –, não há possibilidade real de epidemia. “O vírus HIV continua concentrado em populações de comportamento de alto risco e é incapaz de provocar uma epidemia na vasta maioria das populações heterossexuais”, diz Chin. Atenção: isso não quer dizer que não haja risco pessoal de contaminação pessoal – eu, você, ele ou ela – mas, apenas, que é virtualmente impossível que a doença transborde em larga escala para fora das chamadas populações vulneráveis. A exceção, claro, é a África Sub-Sahariana, onde isso já aconteceu.

Na semana passada, essa discussão explodiu na imprensa mundial depois que o chefe do departamento de Aids da OMS – Kevin de Cook – disse ao jornal inglês The Independent (no domingo 7) que seria “muito improvável que houvesse uma epidemia heterossexual (de Aids) em outros países“ (fora da África Sub-Sahariana). A declaração reverberou, causou furor entre especialistas no encontro de Nova York e provocou um desmentido oficial do próprio Cook, quatro dias depois. “Globalmente, o HIV ainda é largamente impulsionado pela transmissão heterossexual” escreveu ele. Foi um desmentido pela metade. Linhas depois, na mesma nota oficial, ele explica que “a transmissão homossexual continua a impulsionar a epidemia entre profissionais do sexo, seus clientes e os parceiros de seus clientes”. Isso não é substancialmente diferente do que diz Chin – fora da África a epidemia está confinada a grupos específicos – e revela ambivalências no topo do Departamento de Aids da OMS.

 

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 O que isso tem a ver com o Brasil?
É possível haver divergências sobre números tão categóricos? Sim. Pisani diz que as estatísticas de Mariângela não descrevem a realidade global. “Chin está certo quando trata da epidemia global e Mariângela está correta no que diz respeito ao Brasil”, diz Pisani. “Seu país é uma exceção mundial.”

Depois de se desdobrar em elogios ao trabalho do governo brasileiro no combate a Aids – capaz, segundo ela, de conter a expansão da infecção e ao mesmo tempo dar assistência aos doentes – Pisani explica que, a seu ver, o Brasil é único quando se trata da doença. Aqui, ela acredita, misturam-se padrões de comportamento sexual parecidos com os da África com atitudes de risco típicas de outras partes do mundo ocidental. O resultado, diz ela, é um padrão de epidemia intermediário entre a África e o resto do mundo. “Se o governo brasileiro não agisse de forma tão eficiente na prevenção, o Brasil poderia ter um cenário de Aids como o da África”, diz ela.
Comportamento sexual de tipo africano significa que as pessoas – homens e mulheres – mantêm simultaneamente vários parceiros sexuais. Quando muita gente faz isso, sem proteção (isto é, sem preservativos) a probabilidade de infecção generalizada cresce enormemente. É simples de entender: se um homem casado tem sexo regularmente com uma colega de trabalho e com uma garota que conheceu na rua, pode infectar três mulheres diferentes. Se elas também fazem sexo desprotegido com outros parceiros, amplia-se a possibilidade de introdução do vírus HIV no circuito. Pior: se o parceiro de uma delas for bissexual, a chance disso ocorrer aumenta, porque entre homens que fazem sexo com outros homens a possibilidade de contaminação é 11 vezes maior do que numa relação heterossexual.
Por que, então, o cenário africano não se materializou no Brasil? Primeiro, porque não se sabe se o comportamento das pessoas corresponde ao descrito no parágrafo acima. A liberação sexual do país é um fato, mas as pessoas podem ser muito mais monogâmicas do que o imaginário nacional (e internacional) supõe. A outra possibilidade é que, ainda que mantenham múltiplos parceiros, os brasileiros e brasileiras aprenderam a lição e estão usando preservativos. “Eu penso que uma das grandes vantagens do Brasil na prevenção é que as pessoas são orgulhosas da sua sexualidade”, diz Pisani. “Em países dominados pela moral vitoriana, as pessoas dizem uma coisa e fazem outra, e isso torna tudo mais difícil.”

Qualquer que seja a situação, ajuda muito na contenção da doença o fato de que o HIV não é um vírus muito infeccioso. Pisani diz que ele é difícil de pegar em relações sexuais normais (que não envolvam sexo anal, por exemplo), se uma das partes não estiver com grandes quantidades de vírus no organismo. E quando isso acontece? O período mais virulento de transmissão é nos dois ou três meses seguintes à contaminação, quando o vírus está se replicando furiosamente e o corpo ainda não começou efetivamente a combatê-lo. Passado este período, há um intervalo de cinco a 10 anos em que a quantidade de vírus é baixa e a possibilidade de infecção menor. Mais tarde, quando o HIV vence as barreiras do sistema imunológico e volta a se multiplicar, o perigo aumenta – mas, então, a pessoa estará magra e doente, e não terá chance de contaminar muita gente.

Em Nova York, quando falou a ÉPOCA por telefone, Mariângela Simão estava preocupada com a possibilidade de que prevalecesse, na mídia e na população em geral, a percepção de que não há risco de Aids para heterossexuais. “Essa é uma idéia perigosa”, diz ela.

A diretora do programa nacional de Aids teme que a direção da OMS esteja se inclinando para posições que ela considera erradas – e que estão presentes nos artigos de James Chin. Uma dessas posições é a “medicalização” do combate à epidemia, representada, por exemplo, pela idéia da circuncisão em massa. Ela foi apresentada em um texto recente da revista The Economist como panacéia universal contra a transmissão do HIV. Estudos mostram que a circuncisão reduz a possibilidade de infecção em populações com índices elevados (mais de 15%) de prevalência de HIV. “Alguém acha que é possível baixar um avião cheio de médicos e circuncidar milhões de pessoas na África?”, pergunta Mariângela.

A outra tendência detectada pela médica brasileira é a de combater a epidemia com a pregação da abstinência sexual. Isso foi tentado pelo governo Bush nos Estados Unidos, diz ela, e não funcionou, mas continua voltando à agenda por trás de argumentos sobre o “comportamento sexual” das pessoas. “Há juízos morais por trás dessas coisas”, diz ela. Exemplo de sucesso no mundo inteiro, a campanha brasileira de combate à Aids assume que as pessoas farão sexo quando, como e com quem quiserem – e insiste com uma mensagem simples e fácil de entender, a da proteção permanente. Os números de São Paulo, capital nacional da epidemia, sugerem que esse método funciona. Em 1995, no auge da crise, foram notificados 4 112 novos casos de Aids na cidade. Em 2007 eles foram 1 693 – 34% a menos do que no ano anterior.
De acordo com Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de Aids do Ministério da Saúde, quase nada. No ano passado, apenas 13% dos novos casos de Aids no país envolveram homossexuais. “Há um crescimento evidente do número de casos entre heterossexuais”, diz ela. “Isso é tão claro que dizemos que epidemia está se feminilizando.” Vinte anos atrás, havia no Brasil 27 homens infectados por HIV para cada mulher. Hoje, essa proporção caiu para 1,6 homens por mulher. A tendência é clara, diz a epidemiologista brasileira – e é a mesma em toda parte. Os gráficos da OMS mostram que entre 1990 e 2007 cresceu o número de mulheres infectadas em todas as partes do Terceiro Mundo e da Europa Oriental. Na África ao Sul do Sahara, as mulheres são 60% dos doentes. Na América Latina e na Europa Oriental o percentual está por volta de 26% – 14 pontos percentuais acima de 1990

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